Return to site

De Japeri a São Gonçalo: bicicletada atravessou a metrópole

Ação buscou chamar atenção para os principais desafios do Rio pós-Jogos

Por Lívia Cunto

Os parceiros da Campanha #Rio2017 pedalaram de Japeri a São Gonçalo para reivindicar o Rio como cidade metropolitana de 12 milhões de habitantes: espaço urbano integrado, em que se compartilham atividades econômicas, serviços públicos, redes de transporte, recursos naturais e bens culturais. Mais de 50 ciclistas uniram-se à Bicicletada Metropolitana ao longo de todo o trajeto que percorreu oito municípios entre os dias 25 e 27 de agosto. A ação buscou difundir uma agenda de redução de desigualdades, aprofundamento democrático e desenvolvimento sustentável para toda a população e território fluminenses.

De Japeri a Duque de Caxias

Começamos nossa rota de 118km no centro de Japeri, um dos municípios da metrópole mais distantes em relação à capital. Todos os dias metade da população ocupada precisa sair da cidade para trabalhar, já que na cidade só há postos com carteira assinada para 10% dos moradores em idade ativa. A concentração das ofertas de emprego no município do Rio e a precariedade da malha de trens metropolitana faz com que o japeriense seja campeão brasileiro em tempo de deslocamento casa-trabalho, perdendo diariamente quase três horas no trânsito.

No município seguinte, Queimados, apenas 19% da população vive a uma distância de 10 a 15 minutos da estação de trem, único modal de alta capacidade do município. Na capital esse índice é de 47%. O indicador, criado pelo ITDP Brasil, é uma importante ferramenta para avaliarmos quão justas e sustentáveis são as nossas cidades. Quanto mais fácil chegar a meios de transporte rápidos e de baixo custo, maior o número de oportunidades de emprego e lazer acessíveis a todos e menor o impacto social e ambiental do uso de veículos individuais motorizados. Para aumentar o número de pessoas vivendo próximas aos transportes de média e alta capacidade, a Secretaria de Urbanismo de Queimados está realizando um plano para a revitalização do entorno da estação de trem da cidade. O estudo vai elencar instrumentos de política urbana para promover o uso misto do solo (combinar oferta de moradia e trabalho) buscando criar bairros e ruas mais vibrantes, onde seja possível e agradável se deslocar diariamente a pé ou de bicicleta. O princípio norteador dessa revitalização é o DOTS (Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável). O consórcio responsável pelo estudo será anunciado no início do mês que vem e o plano deve ficar pronto em um ano.

Carlos Leandro de Oliveira, morador de Queimados e criador da iniciativa “Queimados pedalando pelo futuro”, foi um dos batedores da Bicicletada. Sua história com a magrela é retrato da dificuldade de acesso à cidade que marca a região metropolitana. Trabalhando na capital, ele ficou três meses sem receber no emprego e começou a pedalar para não perder o serviço. Hoje ele faz o trajeto Queimados-Rio e Rio-São Gonçalo pelo menos três vezes por semana. “Eu vi que era possível utilizar a bicicleta como modal de transporte de curta e média distância e hoje eu milito pela mobilidade urbana sustentável na metrópole”. Carlos hoje faz viagens com a bike e está buscando recursos para fazer a rota do Rio Doce de pedal.

O problema da mobilidade, no entanto, não é o mais grave em Queimados. A taxa média de homicídios na metrópole é de 32,1 mortes por 100 mil habitantes. Em Queimados esse número chega a 74,1, evidenciando a distribuição desigual da violência no território. O desequilíbrio não é apenas espacial: jovens negros, moradores de favelas e periferias, são alvos preferenciais. Não são poucos, no entanto, os coletivos a revelar diariamente a potência cultural da Baixada através da música, da poesia e das artes visuais. Em Morro Agudo, Nova Iguaçu, visitamos a Galeria 2026, um verdadeiro museu a céu aberto de grafite. O projeto é uma iniciativa dos parceiros do Instituto Enraizados. O objetivo é encher de cor as ruas do bairro, pintando todas as paredes disponíveis até 2026. Dudu de Morro Agudo, coordenador do Instituto, conta que no início os moradores hesitavam, mas depois de verem algumas obras começaram até a pedir que seus muros fossem pintados. Dá uma olhada:

No final da tarde do primeiro dia, a Bicicletada Metropolitana chegou à ciclovia cultural de São João de Meriti. Mas não se engane! Tantas bicicletas juntas é raridade no local. Em 2011 o Governo Estadual se propôs a criar uma ciclovia que permitiria pedalar às margens do Rio Sarapuí. O projeto, abandonado, deixou apenas uma área aberta no coração de Meriti – a ciclovia é menor que um quarteirão. As calçadas foram tomadas por barraquinhas de comida, músicos, poetas e cinéfilos. O local se transformou num verdadeiro polo gastronômico e de cultura. Uma das principais atividades por lá são as sessões do Cinema de Guerrilha da Baixada, que acontecem no lendário Bar do Caramujo. Terminamos o dia no Ponto de Cultura Lira de Ouro, em Duque de Caxias, um dos municípios de cena cultural mais pulsantes da Baixada. A cidade é berço do primeiro espaço de coworking criativo da região, o Gomeia – galpão criativo.

Chegando à capital

No 2º dia da Bicicletada, saímos cedo de Caxias. Mal começamos a pedalar e já deixamos a Baixada Fluminense, adentrando a capital pela Zona Norte, eixo histórico de ocupação da cidade, muito maltratado e subaproveitado nas últimas décadas. Aumentar a oferta de moradia na região contribui para tornar o Rio mais sustentável, já que a área tem um alto índice de infraestrutura instalada. O poder público, no entanto, tem optado por investir nas franjas da cidade. A linha 4 do metrô é um exemplo: quase 9 bilhões de reais foram gastos nos últimos 07 anos para ligar a Gávea à Barra, um trajeto que poderá levar, no máximo, 300 mil passageiros por dia. Em 10 anos, apenas 1,2 bilhão serão investidos em todo o sistema de trens, que transporta diariamente 620 mil fluminenses e em torno do qual vivem cerca de 60% da população da metrópole.

Antes do almoço, já havíamos alcançado a Praia de Ramos no Complexo de Favelas da Maré, composto de 16 comunidades onde vivem 140 mil pessoas – é o conjunto mais populoso do país, maior que 96% dos municípios brasileiros. Fomos recepcionados pelos parceiros da Redes da Maré e trocamos uma ideia com a Lidiane Malanquini, coordenadora do eixo de segurança pública na organização, sobre a campanha Somos da Maré, Temos Direitos.

Depois de uma pausa para o almoço no delicioso Bar Amparo, na Maré, seguimos nosso trajeto pela capital passando por Bonsucesso e Benfica. Apesar da infraestrutura instalada ser um fator de incentivo ao adensamento das zonas norte e central da cidade, 55,4% das unidades habitacionais do MCMV estão concentradas na zona oeste, principalmente nos bairros de Cosmos, Santa Cruz e Campo Grande, três dos mais afastados do Centro. Na região central, onde estão 35,4% dos empregos formais, são apenas 1.958 unidades. No total da cidade, a zona oeste concentra 27% dos moradores e oferece somente 11% dos postos de trabalho. A zona norte, a mais populosa, abriga 38% dos habitantes e 22,6% das vagas de trabalho.

Grande parte dos esforços recentes no enfrentamento da questão da moradia na capital ficaram concentrados no Morar Carioca e no PAC, esvaziados nos últimos anos. Na comunidade de Manguinhos, por onde também passamos, muita coisa ficou no papel, de habitação a saneamento básico. Moradores de lá, do Alemão e do Jacarezinho convocaram uma audiência pública em busca de respostas para as 1500 famílias que permanecem recebendo aluguel social sem perspectiva de reaver suas casas, prometidas pelo Governo do Estado com recursos do PAC. Seu Beserra, morador de Manguinhos, conversou com os ciclistas da Bicicletada Metropolitana sobre o problema.

Antes do fim do segundo dia, fizemos uma parada para descansar os pés na grama na Quinta da Boa Vista, um dos principais espaços de contato com a natureza na zona norte. O Rio como um todo é marcado pela sua vitalidade cultural, esportiva e pela disposição para o convívio no espaço público. Ainda há muito o que avançar, no entanto, para desfazer a degradação de áreas verdes, qualificando a relação dos fluminenses com a cidade. Contamos hoje com cerca 90 mil hectares de áreas protegidas na metrópole, o equivalente a 16% de seu território e conta com 183 unidades de conservação, nos 21 municípios. A desigualdade também se faz presente, no entanto, no que tange às paisagens verdes: na capital 70% das ruas são arborizadas. Em São Gonçalo, essa taxa é de apenas 34%. Uma política de valorização dos parques, praças, espaços públicos e áreas de preservação em toda a metrópole pode transformar o cotidiano das pessoas. Na capital, dormimos na zona portuária, acolhidos pelos parceiros do Spectaculu.

Cruzando a Baía rumo ao Leste

Começamos o terceiro dia desbravando a Zona Portuária. O local está bonito, mas ainda pouco amigável às bicicletas. No trecho Praça Mauá – Praça XV o espaço caminhável é pequeno e não há ciclofaixas. Pedalamos até a estação das barcas e subimos nela com as bikes para alcançar Niterói, atravessando a Baía de Guanabara. Os 380km² de espelho d’água poluídos – principal legado não cumprido dos Jogos – são resultado da precária infraestrutura de saneamento presente nos 16 municípios que os rodeiam. 2/3 dos habitantes da metrópole, 8,5 milhões de pessoas, drenam esgoto diretamente para a Baía e calcula-se que sejam necessários 19 bilhões de reais para universalizar a coleta e tratamento nessa região. O investimento para que paremos de sujar a Guanabara é alto, assim como a urgência dessa agenda, considerada por muitos um desafio medieval a ser enfrentado em pleno século XXI. Despoluir a Baía e multiplicar seus usos para lazer, pesca, transportes e turismo, com aumento da qualidade de vida de quem mora em seu entorno, no entanto, esteve fora do foco de atenção prioritária na história recente da cidade. Destinamos um total de R$ 5,8 bilhões nos últimos 24 anos a programas de despoluição, o equivalente a 1/3 dos gastos públicos estimados para a realização das Olimpíadas.

De Niterói a São Gonçalo de bike é um pulo. Logo depois de sair da Praça Araribóia encontramos com a galera do São Gonçalo Bike Clube para seguir viagem até a Praia das Pedrinhas, linha de chegada da Bicicletada Metropolitana. O local é espaço de lazer e contato com a natureza, apesar de suas águas serem impróprias para banho. A ausência de infraestrutura de coleta e tratamento de esgoto é uma das pautas mais urgentes do município de São Gonçalo: apenas 0,70% da população é atendida. A única ETE do município, construída com investimentos do PDBG na década de 90, não trata, até hoje, nenhuma gota de esgoto. Um segundo sistema de esgotamento sanitário está sendo construído para sanear o Rio Alcântara, no programa conhecido como PSAM. O término das obras está previsto para final de 2017, com a promessa de conectar o esgoto de 233 mil moradores à rede. Dossiê lançado recentemente, no entanto, mostra que o atual programa de saneamento carece de transparência e mecanismos para controle social, um dos principais problemas do extinto PDBG (saiba mais).

Chegamos ao destino final, a Praia das Pedrinhas às 14h de sábado. Lotamos o Bar do Zepi para o almoço de confraternização. A Bicicletada Metropolitana foi tema de reportagem da Band e assunto da websérie Naty de Bicicleta, do Canal Colabora. Confira também todos os cliques do passeio. A Campanha #Rio2017 segue a toda velocidade em setembro, com entrega das propostas aos candidatos nos 21 municípios da metrópole. Siga conosco nesse giro!

All Posts
×

Almost done…

We just sent you an email. Please click the link in the email to confirm your subscription!

OKSubscriptions powered by Strikingly